CRÔNICA: Sobre a farsa das aparências que fingimos até para nós mesmos

A valsa de Amélia

Amélia acabara de fazer dezesseis anos e estava a caminho de seu primeiro baile, tendo como acompanhante a sua querida mãe, que desejava empurrar sua filha para os pretendentes ricos do salão. Dejeso que não tardou para se cumprir, como se o baile a tivesse esperado apenas para tornar isso real.

Assim que chegaram ao Salão do Alvorecer, as portas se abriram solenemente e uma linda garota em seu vestido que fora perfeitamente apertado ao ponto de lhe negar o direito de respirar e saltos brilhosos entrou, e em sua mente ressoava a frase que sua mãe lhe dissera antes de descerem da carruagem:

"A virtude é o perfume da mulher. Não o espalhe, apenas deixe que sintam."


As portas se fecharam, olhos a observavam, cochichos a mediam e homens de todos os cantos do salão foram cumprimentá-la, com a desculpa de agirem segundo a etiqueta, quando na verdade queriam saber de perto se ela seria aquela que teria o privilégio de atender as listas de uma esposa ideal que estavam no bolso de seus palitós .

Os interrogatórios e cantadas para com a moça logo começaram, o Sr. Costantino iniciou a conversa:

"Temos aqui uma flor rara. E eu um jardim vazio."

O jovem César, seu filho — um solteirão de fama duvidosa — quis lhe falar sobre literatura, mas como falar daquilo que não se sabe?

Amélia os olhava com olhar doce, quando no seu interior ridicularizava a situação.

"Eles fazem de conta que procuram alma, mas colecionam moldura. E eu sustento o teatro de que escolher entre eles é privilégio meu."

É fato que ela sabia fingir sentimentos com maestria. Poderia ser uma atriz profissional se sua mãe não dissesse que atuação é uma carreira para mulheres promíscuas — afinal, elas recebiam para fingir, quando ela fazia de graça.

Os murmúrios do restante dos convidados podiam se ouvir em meio a música que enchia o espaço — tornando mais presente a tontura na mente da jovem.

"Que beleza agradável ela tem, não é?!" "Ela está na idade fértil de uma mulher, ande filho, vá comprimentá-la." "Como tem coragem de usar um vestido tão branco, quer mostrar como ficaria em um vestido de noiva?"

Somado a esse ambiente encantador, Amélia sentia ao longe — mas como se estivesse em seu pescoço — os olhos de sua mãe a analisando para saber se estava colocando em prática todos os ensinamentos que recebeu.

Neste momento a música cessou e anunciaram a valsa, e o círculo de homens em volta da dama — tal qual abelhas numa flor antes de sugar seu néctar — lançavam seus convites disputando entre si a honra de ser o primeiro a conduzir a donzela à pista.

Então Amélia decidiu fazer sua própria valsa: tropeçou levemente, levou a mão à testa com a graça de uma atriz experiente, e caiu no chão com a suavidade que só o cansaço da farsa poderia justificar.

"Pobrezinha, acabou desmaiando. Ela é uma garotinha muito sensível." Disse a mãe corada de vergonha e suspeita.

"Sensível a verdade, talvez." Falou Amélia a si mesma, sentindo a paz tomar seu coração.

Após ser posta em uma sala para repousar, ouviu uma voz ao longe que pedia — quase implorando — desculpas em seu nome, e percebeu que:

"Decepcionar foi um escândalo. Mas aceitar seria um silêncio muito mais cruel."

🌙
E assim Amélia terminou sua dança, com uma valsa calculada e impactante. Sua noite não chegou ao fim, mas seu protesto  disfarçado valeu a pena. Quantas damas passam pelo mesmo salão usando um vestido que apertam mais do que a cintura?

Talvez todo baile seja um teatro. E talvez seja hora de damas e cavalheiros escolherem qual valsa querem dançar. 

💬 E você já dançou papéis que não escolheu? Ou está no meio de um baile? Me conta nos comentários, ou vá adiante — experimente outro texto com sabor forte.  Aqui há bebidas para todos os sentimentos.



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